Dos mesmos criadores de: "E as namoradinhas?", vem ai "E você só estuda?"



Precisamos investir em educação. Fazer paralisações para o governo valorizar a classe. Quando a sociedade a valorizar a pesquisa ai o brasil melhora. Etc.

Todas essas frases são repetidas desde que comecei a me interessar pelo tema ensino e ciência no brasil, e suspeito que elas vem de muito antes. Todas elas permanecem quase inalteradas independentemente da situação política, partido governante ou nível geral de educação do país. E o que todas tem em comum? A crença eterna em um salvador exterior. Professores de universidades que vêem a solução da crise na educação "somente quando" um político digno subir ao poder e começar a dar mais dinheiro para pesquisas. Professores de escolas públicas que fazem greves de meses esperando o governo melhorar seus pagamentos, sem repassar tais motivos aos pais dos alunos. E finalmente alunos de pós-graduação fazendo greve (risos) em suas pesquisas em busca de bolsas mais justas, para aí sim a sociedade valorizar a pós.

Meu post da semana seria sobre exobiologia e coisas bem legais, mas resolvi interromper ele para seguir o convite do Site do Pós-Graduando e fazer uma postagem no blog sobre o valor da pós-graduação. Eu comecei já lendo o que outros blogs postaram, e resolvi não falar mais do mesmo. Sim o brasil vive uma séria crise na educação, com uma desvalorização gigantesca financeira e moral dos professores. Sim a sociedade não tem ideia de para que serve um pós-graduando e qual a vantagem dos impostos irem para universidades sustentarem esse povo que "só estuda". Sim bom parte dos graduandos são analfabetos funcionais e com as devidas acochambrações em breve boa parte de quem se formar também vai ser. Isso tudo foi tema de debate nesses outros blogs e concordo em diferentes níveis com cada uma das afirmações.

Meu ponto aqui é: O que nós, como pós-graduandos, esperamos realmente? O que representou de fato aquela "greve"  de 2012 em que os pesquisadores eram chamados a ficarem um dia sem pesquisar para "forçar" o governo ao aumento de bolsa?

Claro, nós sabemos, ou deveríamos saber, a importância da pós para um país. Essa dissertação é um excelente exemplo (kibei do blog Mineração de Dados). Após a graduação em um determinado curso, a pós (principalmente strictu sensu) é voltada a pesquisa, seu objetivo não é formar um profissional de mercado de uma área, mas sim um pesquisador (um cientista, vá lá). E diferente de uma graduação, o pós-graduando já produz durante  seu curso. Ele não faz somente matérias, é exigido que ele faça pesquisas, pesquisas em áreas originais e interessantes. Somente com uma pós-graduação forte, um país consegue se livrar da importação constante de todo tipo de tecnologia e recursos intelectuais.

Sua pesquisa atual em bagas de milho do sul da amazônia em clima amenos pode não parecer a coisa mais importante quando estiver escrevendo a dissertação, mas nenhuma grande descoberta foi feita pensando com antecedência em sua aplicação. De fato a maioria das pesquisas de biodísel atuais, absurdamente valorizadas pelas industrias, não passavam de curiosidades acadêmicas sobre bagas vegetais até alguns anos atrás. Nas palavras de um crítico inocente do laser, na época de sua invenção: "Esse objeto é uma resposta a procura de um problema". Hoje em dia dificilmente conseguiríamos imaginar uma invenção que tem mais usos úteis. A pesquisa de uma pós-graduação é isso, ciência bruta, não é uma empresa investindo no desenvolvimento de uma tecnologia específica e arbitrária, é o estado, e algumas poucas empresas que tem visão, investindo em potencial.

Ok, em outros lugares, ou textos do blog futuros, você pode encontrar mais informações específicas sobre a importância essencial de um país manter uma base saudável de pesquisadores para desenvolvimento de ciência "pura". Como eu disse isso já foi abordado em outros blog da iniciativa do blogasso (clique no link la em cima e dá uma lida nos outros textos, são excelentes). Meu ponto aqui é: Porque esperamos que a solução venha de fora?

Como citei acima, temos a tendencia quase cultural de esperar uma solução que venha de fora, que o governo magicamente mude e tudo fique melhor. Mas a meu ver o problema é bem mais embaixo, é em nós mesmos. Quem nunca se chateou com a pergunta: "mas você só estuda?". Essa pergunta já carrega diversas sutilizes, as mais evidente; de que estudar é simples e fácil, não tão digno quanto o trabalho. Mas também de que a pós envolve só uma segunda graduação, somente assistir aulas intermináveis e ficar dormindo. E as pessoas não estão erradas em perguntar isso ao meu ver. Pergunte ao zé da padaria qual a importância da pós-graduação. Pergunte ao Sidney porteiro do prédio ou o Ademar, marido da dona Nizete da vendinha o que um mestrando faz de bom para o país. Ou melhor ainda, ouse contar a um trabalhador que os impostos dele servem para bancar a bolsa de mestrado de um cara da pós-graduação. A reação das pessoas vai ser quase sempre de revolta, de achar que esse povo não traz nada de bom pra sociedade e ainda por cima vive dos impostos.

Mas quando foi a última vez que você viu alguém se dando ao trabalho de explicar o que era a pesquisa que ele fazia? Ou qual um exemplo, dentre tantos, de como a pesquisa científica gera retorno palpável para a sociedade? Pelo contrário eu, em minha especialidade, consigo lembrar as inúmeras vezes que colegas do segundo período de graduação, ainda cheios de si por passarem em uma universidade, zombavam de nomes como Carl Sagan por eles serem "só de divulgação". Exatamente essa atitude, de menosprezar a divulgação científica, que gera a nossa sociedade atual. Concordo plenamente que os salários de professores de ensino médio são ridiculamente baixos e deveriam melhorar. Também concordo que a situação do ensino no país esta uma merda gigante. Mas acho que a causa passa longe dos políticos atuais. Eles são somente reflexos do que a sociedade criou, e o que ela quer. Como diz um excelente texto, acho que do Veríssimo, tendemos a achar que políticos são outra espécie, que magicamente descem de discos voadores sobre brasília. Esquecemos que todo político já foi uma criança brasileira criada na nossa cultura para se tornar o que é hoje.

Eu não tenho a menor dúvida que atualmente um político propondo o aumento agressivo de bolsas e financiamentos para a pós-graduação pura, sob a bandeira de incentivar a ciência, seria duramente rechaçado não só por outros políticos como pela visão pública atual. Entenda que não são políticos malvados e gananciosos que querem o fim da ciência. É nossa sociedade como um todo que não vê necessidade nenhuma em pesquisa, e por um motivo claro; a maioria dos pesquisadores se recusa ferrenhamente a explicar aos leigos o que eles fazem e qual a importância da pesquisa/ciência para a sociedade.

Como eu disse, em 2012 rolou uma campanha a nível nacional de "paralisação da pós". Em tese todos nós deveríamos tirar um dia da semana para ficarmos sem pesquisar. O que mudou nesse dia? A internet parou de funcionar? As leis da física quebraram? Não, absolutamente NADA mudou na vida do cidadão comum. Fico MUITO feliz de que essa ideia tenha sido somente de um dia, quisera esse grupo inventar de paralisarmos as pesquisas por um mês, teríamos não somente NADA mudando na vida das pessoas como agora uma sociedade pensando: "Pera, um imposto violento ta indo para esse bando de vagabundo que só estuda. Eles ficaram um mês inteiro sem trabalhar e nada mudou, a gente devia era cortar todas as bolsas mesmo." (Nota importante; a bolsa foi reajustada sim, mas eu particularmente acredito que foi menos devido a pressão dessa "paralisação", e muito mais a ver com as diversas cartas e movimentos de sociedades científicas/reitorias de universidades.)

Novamente o pensamento de que forçando o governo, uma misteriosa força do além viria salvar a pós. Agora eu penso, na mesma ideia do site Pós-Graduando, e se em 2012 cada aluno tivesse tomado menos que duas horas do seu dia e ao invés de fazer uma "greve" tivesse escrito um texto sobre o que ele faz? Algo falando exatamente qual a sua pesquisa, as dificuldades de se desenvolver e pesquisar conteúdo novo, como a sociedade acaba se beneficiando a longo prazo das descobertas pequenas que cada pesquisador faz durante seu mestrado ou doutorado. Não tenho dúvidas que isso teria mudado infinitamente mais a mentalidade de diversas pessoas, entre elas possivelmente políticos em início de carreira, que ainda pensam em melhorar a sociedade. Mas principalmente pais; pais que ensinariam seus filhos como é importante a pesquisa e a ciência. As mudanças não vem rapidamente, nossas atitudes não afetam velhos políticos ja endurecidos ou antigos donos de multinacionais. O que podemos fazer é inspirar gerações futuras. Claro que muitos duvidam disso, dessa ideia quase utópica. Quando esse pensamento surge eu me pergunto, quantos de nós cientistas não estamos aqui hoje somente por um momento sutil de epifania que pode ter surgido na infância? Uma tarde assistindo na TV cultura  um cientista de jaleco verde brilhante e cabelo arrepiado, ou aquela noite de domingo vendo na televisão um jovem astrofísico falando com amor e paixão sobre o Cosmos...


Comentários

Num tema semelhante, mas menos nobre por minha parte, eu tava pensando sobre a resposta da pergunta 'e você só estuda?'.
Foda que a conclusão é que essa pergunta passou a me doer - já doía por pensar que tinha algo de ruim na desvalorização do estudo, mas quanto a isso você já falou muito bem - porque agora eu começo a notar, devido a crise e à austeridade que vem com ela, que a posição da gente é muito frágil; não só os políticos e a sociedade civil mas também os professores nos vêem em parte como um gasto incerto. A gente de fato é tratado menos como investimento e mais como fardo. Isso é triste. A ponto que eu não tenho me visto muito como alguém que tentaria convencer a um jovem a seguir uma carreira científicas simplesmente porque quem está seguindo não está sendo tratado com um tanto justo de dignidade que mereceria.

Tá foda ter profissão bolsista. Com crise e até mesmo sem crise.
PEP disse…
Isto pôde ser observado quando este ano se levou aos legisladores a necessidade de regulamentação da profissão de cientista no Brasil. E eles chegaram a conclusão que não era necessário regulamentar.

Postagens mais visitadas deste blog

Sobre ser adulto e atitudes infantis

"A arte é elitista"

O alienista, Uma crítica passável ao cientificismo