We´re all starstuff



Nós nascemos, crescemos e morremos. E tudo que nós fomos (fisicamente) junta-se novamente à terra em um ciclo, se decompondo. Ossos, músculos, gorduras, tudo começa a se decompor tornando-se alimento de fungos e bactérias. Mas é claro que seres unicelulares (ou pouquinho-celulares) não comem de fato a carne podre, como no nosso conceito. Em um nível infinitamente menor, os próprios componentes da carne, músculos, etc são decompostos em nível molecular, e aí sim a coisa para de se decompor. Depois dos níveis mais fundamentais de nutrientes para seres vivos como proteínas, açucares mais básicos e moléculas nada mais é "desfeito", ou seja nenhum organismo (conhecido) quebra moléculas em átomos para utilizar a energia (com exceção dos EUA, koreia do norte e por ai vai XD).. As moléculas de infinitos tipos são aproveitadas ou eliminadas por milhares de bactérias, e, eventualmente, aquelas que foram eliminadas são reintegradas a ciclo ao serem absorvidas por plantas, no solo ou através da água. Finalmente o ciclo se fecha,  quando todas esssas moléculas são processadas por vegetais, se tornando alimento para os animais que existem em escalas macroscópicas (grandes u.u).

Ok, até aqui nenhuma novidade, afinal todo mundo viu isso no ciclo básico. Mas alguém já se perguntou de onde veio o açúcar inicial, as proteínas, a clorofila, o carbono, o fósforo,  e todos os outros componentes básicos desse ciclo aparentemente fechado e lindo?

Bem o que não se discute nas escolas em geral é que a teoria sobre como essas moléculas (e eventualmente mesmo os átomos) vieram parar aqui, no nosso planetinha, já é bem embasada e possui evidências e provas suficientes há muito tempo. Por hora eu vou pular a parte de como as moléculas em si se juntaram para formar a "vida" porque de fato essa parte ainda possui questões em aberto, de modo que vamos falar de um passo antes, afinal como os átomos que compõe tudo que vemos vieram parar aqui?

Na verdade você, eu, e até a dona Neuzinha da venda na rua debaixo, já estivemos em uma estrela. Ou pelo menos nossas partes individuais. No início dos tempos não haviam pedras, metais, barro ou outros elementos por aí, o que nós vemos ao nosso redor, tudo que nós vemos, são átomos de matéria que foram forjados no coração de estrelas colossais, a milhares de anos atrás.

Tudo que existe ao seu redor, você incluso, é composto de átomos. Pedacinhos minúculos da realidade que são compostos por prótons, neutrons e elétrons. Mas o que diferencia um carbono de um hidrogênio, ou de um ferro é unica e somente a quantidade de Prótons (e neutrons) que cada um deles possui, afinal todos são formados somente por quantidades diferentes dessas partículas.

Veja bem o universo não surgiu com tudo pronto do jeito que vemos. Não estou falando dos planetas em si, mesmo antes dos planetas, os próprios elementos químicos que conhecemos não existiam. No início (cerca de 1 segundo após o big-bang) haviam somente protons, neutrons e elétrons flutuando livremente pelo espaço. Uma sopa cósmica gigantesca de partículas fundamentais, que não formavam nada além dessa sopa. Mas a força elétrica acabou juntando protons e elétrons, formando os primeiros átomos de hidrogênio (o hidrogênio é o átomo mais simples da natureza, composto exatamente por um proton e um elétron). A partir disso nos chegamos a um problema, o hidrogênio fica eletricamente neutro, e outros prótons não irão se juntar a ele livremente para formar outros elementos químicos.

Então a partir da sopa cósmica de partículas fundamentais nos passamos a ter uma sopa cósmica de átomos de hidrogênio e um ou outro proton e neutron desgarrados, todos eles neutros, ou seja, sem força elétrica para se juntarem e formarem coisas mais complexas. Mas também existe uma outra força na natureza, que faz tudo tender a se aproximar (não, não é o amor), a gravidade. Apesar de um hidrogênio tender a se aproximar do outro hidrogênio devido a gravidade, essa força é muito fraca, e somente depois de milhares de anos que a grande sopa de hidrogênio começou a formar caroços, agrupamentos de hidrogênio atraidos pela gravidade. Essas foram as primeiras estrelas do universo.

Bolas colossais de hidrogênio começaram a se formar devido a gravidade por todo o espaços, juntando cada vez mais hidrogênio e ficando cada vez mais pesadas. Essas estrelas (que eram de fato colossáis, cada uma era infinitamente maior que nosso próprio sistema solar) eram tão grandes e tão pesadas que no centro delas, lá no núcleo, a pressão era suficientemente grande para forçar com que dois hidrogênios se fundissem em um novo átomo, o Hélio. Com a pressão e temperatura tão alta em seu núcleo essas estrelas literalmente fundiam dois átomos de hidrogênio em um novo átomo, que continha dois protons agora.

Com o passar de mais milhares de anos cada uma dessas estrelas colossais agora tinham se tornado literalmente fábricas cósmicas de hélio, e até mesmo de alguns outros elementos químicos compostos de mais que dois protons. Conforme elas seguiam seu ciclo de vida em seu núcleo eram acumulados cada vez mais desses outros elementos, e, eventualmente, elas passavam a fundir esses elementos como hélio e lítio (3 prótons) formando cada vez novos elementos. 

Um belo dia cada uma dessas estrelas acumulou dentro de si elementos pesados demais, e que não era possíveis de se "queimar". Nesse momento, perto do fim da vida da estrela, ela poderia seguir caminhos diferentes, se tornando inativa (um grande bloco de elementos flutuando) ou expelindo esses elementos de seu interior em explosões e jatos de escala cósmica, lançando por todo o universo os átomos mais pesados essenciais a criação da vida.

É através desse processo, repetido centenas de vezes novamente em outras estrelas, e por milhares de anos, que eventualmente o universo ficou cheio de tantos átomos diferentes quanto conhecemos. E um belo dia a poeira dessas estrelas que explodiram a milhares de anos, graças a gravidade, foi se juntando ao redor de uma pequena estrela amarela e formando um novo planeta, cheio de elementos químicos propícios à vida. 
Eventualmente esse planeta se tornou um pálido ponto azul.

Comentários

Jenyfer disse…
Que lindo! Sou pedacinhos de estrela! Ahahaha, ficou muito bom e didático... Eu sou suspeita, sempre babo quando você começa a explicar essas coisas!
Pra conseguir minha atenção à uma da manhã quando estou cheia de coisa pra fazer, tem que ser um texto realmente bom... E eis o que aconteceu :) Gosto da sua didática pra explicar esse tipo de coisa.
Marco Antonio disse…
ooown valeu suas lindas!!!

Todos nós, cada pedacinho, forjado no coração das estrelas a bilhares de anos

"Deixe eu ver se entendi direito, eu peguei um pedaçinho de um cristal, enrolei um fio nele e passei uma corrente eletrica, e com isso consegui obsevar as forjas da própria criação?
" Dr. Arroway, Contato. De Carl Sagan
Jenyfer disse…
Aiaiiiii, Contato <3 Bonito!
Gabriel Caetano disse…
Muito bom, Marco. O texto é bacana e você explica de forma acessível pra todo mundo. E o que eu acho mais bacana dessa reflexão é que ela pode reforçar tanto o argumento de que a vida é acaso, como também pode ser graça. De qualquer maneira, Moby was right. http://youtu.be/RbfhSHVm2Fc
Natalie Cruz disse…
Ficou muito bom o texto e como "Gênese" bem mais bonito e poético que a Bíblia. Hehe, acho massa a forma que você consegue mostrar que ciência é, acima de tudo, uma coisa bonita, uma coisa que a humanidade inventou mas é trocentos quilometros de infinito maior que as próprias pessoas.

Liga não, tô meio poeta e pateta esses dias =)

Alex disse…
Não sei porque, mas me veio Carl Sagan em mente... hehehehe

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